E as entrevistas acontecem…

Depois de muitas pesquisas, telefonemas, viagens, finalmente encontramos nossos personagens e agendamos as entrevistas. Nas duas últimas semanas nossa equipe trabalhou intensamente na preparação e nas filmagens dos depoimentos em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Eis a nossa saga:

No primeiro dia, pegamos o carro as 05h e saímos de São Paulo. Chegamos em Amparo (150km de Sampa) e tocamos o interruptor do maestro Georges Henry pontualmente as 08h. Acabamos fazendo a entrevista no memorial que levava o seu nome (que dividia espaço com um estranho brechó). A entrevista, então, se desenrolou maravilhosamente. Durou cerca de 02h e 30 minutos! Terminamos as 14h. Apenas o final foi um pouco corrido porque a filha dele queria encerrar logo o serviço. Mas ele falou de tudo que foi planejado e assistiu aos filmes selecionados.

A segunda entrevista era uma das mais esperadas. Foi tudo muito bem, mais uma vez. O Jean Pierre Manzon falou começou arredio, um pouco se esquivando, depois se soltou e começou a falar. Nota importante para um momento em que perguntei do dia do golpe e ele me respondeu: “meu pai me pagou pela mão e me levou para o Palácio Guanabara… disse ‘venha ver, filho. Não é todo dia que se vê uma revolução'”. Foram três horas de entrevista.

Depois disso, rumo à Cidade Maravilhosa!!

No Rio, entrevistamos Luiz Alberto Sanz. Nossa entrevista mais longa até agora. Ele rendeu bem mais do que o esperado e praticamente todo o tempo tratou dos assuntos do nosso filme. Teve momentos exaltados e foi, sem dúvida, o entrevistado mais receptivo a nossa presença.

No dia seguinte fizemos a entrevista com Micheal Reichmann. Um pouco mais simples de produção, essa foi em Copcacabana. Mas as facilidades terminariam por ai: ele tinha um compromisso antes do almoço e isso nos obrigaria a montar a luz em uma hora e esse que vos fala a ser uma pessoa menos prolixa. Sem contar que sempre teve o medo de saber quanto o Micheal poderia realmente render. Mas as surpresas foram ótimas, ele rendeu mais que todos os outros personagens, conseguindo perpassar por quase tudo que nosso filme trata. Além dos momentos de emoção, contida, é verdade, suas reflexões são muito próximas com aquilo que pretendemos tratar. E ele se envolveu e acabou desmarcando o compromisso dele… quis ficar mais um pouco. Um momento muito forte foi quando disse, durante a exibição dos filmes: “sério que meu pai fez isso?”.

As últimas duas foram bem mais complexas do que as anteriores. No caso do Alberto Shatovisky, a coordenadora do Cine Odeon informou para ele que começava as 09h30 e para nós as 08h30. Conclusão: chegamos 07h15, preparamos toda a luz e ficamos esperando ele… a entrevista durou apenas uma hora… quando ela começou a engrenar, teve de terminar. E por muito tempo, Shatovisky insistiu em um discurso de celebração do cinejornal e de Carlinhos Niemeyer… só no final ele começou a fazer uma autocrítica e soltar frases como : “os cinejornais tiveram seus pecados” ou “eu te garanto que eu não escrevi isso”.

Também tivemos a entrevista com a Denise Assis aqui no Rio. Como conteúdo ela foi muito bem, embora esperasse que ela falasse mais do IPÊS e menos da ditadura militar.

Nossa última entrevista foi numa cidadezinha em Minas Gerais, Santos Dumomnt: Dorvalino. tinha 35 anos no dia do Golpe e era o coroinha da pequena cidade mineira que ajudava a exibição e projeção dos curtas-metragens que chegavam do Rio no salão paroquial da Igreja.

Foi uma entrevista tensa. Dorvalino foi resistente em falar de muitos pontos e parecia muito desconfiado. Falamos de tudo que precisávamos, mas nada se desenrolou naturalmente. Tive de interceder várias vezes. Ele também impós muitas dificuldades em vários momentos: escolha do local de gravação, horários e mesmo no momento de assistir aos filmes. Mas no fim, contou histórias fantásticas sobre o anticomunismo nas pequenas cidades.

“Ai eu vi” ao redor!

“Ai eu vi” ao redor!

No pequeno “Paradise – Made in Bahia”.    Foto Nicolas Hallet
Sem as portas, que era para ver melhor.   Foto Nicolas Hallet
Outra opção colada à asa.   Foto Nicolas Hallet
Linhas, territórios,  plantas.   Foto Ernesto de Carvalho

Padre Leal – São Marcos

Uma franca e excelente conversa com Padre Leal na aldeia de São Marcos, a duas horas de Sangradouro.

Uma grande preocupação sua, no começo de conversas assim, é deixar claro que deve-se deixar de lado os preconceitos ” normalmente encontrado nos antropólogos” ao olhar para a história das missões naquela região, para a sua compreensão mais exclarecida e que não aceitam “por natureza” a catequisação e pregação para os povos indígenas. “Os índios estavam precisando de ajuda e a convivência com os padres lhes era interessante naquele momento. Se acontescesse a mesma coisa no mundo de hoje, as coisas teriam sido diferentes, é claro. Cada um na mentalidade do seu tempo e lugar, sem contar com excessões”.  Mas estes são livres parafraseamentos de suas palavras.

O cacique de São Marcos, Divino de costas, Padre Leal, Tiago, Ernesto (só um pedacinho) e Nicolas.
Caminhamos.
A aldeia de São Marcos tem a maioria das casas de palha.

Fotos Amandine Goisbault

Via Sacra

Via Sacra, um dia antes da grande missa de páscoa.
Era ainda cedo, e as pessoas não tinham se juntado para a percorrida mental ao caminho de jesus a carregar a cruz.

Foto Tiago Campos

Foto Tiago Campos

Foto Amandine Gisbault

Foto Tiago Campos